A Palestra de Manuela Nogueira

8 Fevereiro 2009 at 6:42 pm (Uncategorized) (, , , , , , )

Second Life

Foi com prazer que aceitei este convite de participar num evento dirigido também para o público virtual da Second Life. Tinha duas opções: ou escrever uma espécie de texto analítico sobre a Second Life ou falar de meu Tio Fernando Pessoa.

Pela circunstância de ainda estarmos a celebrar os 120 anos do seu nascimento era óbvio que a escolha era esta.

Acontece porém a circunstância de ter acabado de escrever um texto em inglês para levar a Utreque, na Holanda, a um Festival pessoano. Houve então uma ideia que me assaltou e depois se fixou para poder dialogar convosco.

O tema dessa palestra versa a questão: Instalação e Contestação.

É evidente que Fernando Pessoa começou desde os anos de Escola em Durban a contestar. Temos provas dessa contestação. Explicando essa contestação que mais tarde levou o poeta a criar várias personagens, digladiando em muitas frentes diversas, pensei que a ideia para a minha primeira abordagem para a Second Life seria sugerir que Fernando Pessoa foi, sem o saber, um pioneiro de um mundo virtual.

Para ele uma vida regular seria uma monotonia e assim criou uma assembleia de personalidades imaginárias com vidas distintas.

Penso que este autor português, traduzido em trinta e seis línguas, foi o primeiro inspirador de uma espécie de Second Life .

A criação de vários heterónimos e personagens, sendo uma, mulher (Maria José, a corcunda que amava um serralheiro), promove-o a um precursor de vidas virtuais. Sempre adiantado e fora do seu tempo, ele deu vida a várias criaturas que se definiam com identidades próprias, com culturas e pontos de vista opostos.

O drama – entenda-se peça teatral – conjunto de personagens com características diferentes que estabelecem diálogos ou solilóquios.

Quem conhece só uma parte restrita da obra de Fernando Pessoa pode ser levado a crer em afirmações que Fernando Pessoa nunca partilhou senão naquele mundo virtual.

Vamos imaginá-lo na nossa época.

Que divertido acharia manobrar essas marionetas intelectuais num ambiente que ele próprio criaria! O uso de um computador, da internet e a possibilidade de ter um Blog facilitariam o seu desempenho múltiplo. Talvez então tivesse sido possível dispor de tempo para casar com Ofélia, ter filhos, viajar num carro seu, um chevrolet. (mencionado no poema de Álvaro de Campos: Tabacaria.)

Ofélia, a quem escreveu tantas cartas de amor.

A família do poeta teria vivido descansada. É esta a parte que me toca mais profundamente. Os investigadores teriam acesso online e não teriam a preocupação de pedir autorização para consultar o seu espólio. Esse facto, daria à família que já há dezenas de anos os atendem, por amor ao poeta e à divulgação da sua obra, uma qualidade de vida que não é a que têm tido. A obra na Internet seria a original. A expansão da obra, a grande conquista da globalização por meio da técnica. O que aí escrevia mostrava a sua criatividade, o importante de uma comunicação célere e não o suporte onde fez os seus manuscritos.

Seria fácil ouvi-lo falar da sua família

Também seria reduzido os problemas que os investigadores têm com o seu espólio,! Não haveria tantos dactiloscritos e listas infindáveis de projectos. Se Fernando Pessoa fosse minimamente hábil, teria o seu espólio em pastas e as cópias definitivas em dossiers na internet. Tudo mais rápido, mais eficiente.

Haveria na Second Life várias figuras parecidas, mas distintas dizendo seus versos. Um Caeiro aloirado e de aspecto débil vivendo olhando a natureza e entendendo seus segredos e enredos e um Álvaro de Campos, vestido à inglesa com hábitos de Glasgow e chá ás cinco num café no Rossio enquanto esperava por Ofélia. Este Álvaro de Campos talvez se referisse ao seu antecessor Alexander Search que Pessoa trouxera na mala de viagem de Durban e de quem herdara a loucura das odes gigantescas, vociferantes, geniais.

Depois aparecia o Ricardo Reis com as sua odes esperando por Lídia e falando um pouco à moda do Porto. Ele sabia que era o homem de confiança do poeta Fernando Pessoa e que fora incumbido do prefácio para o livro de poesia de Alberto Caeiro, e para além disso tinha vários projectos de traduções. A sua cultura clássica assim o possibilitava.

Tal como possibilitava que proclamasse que preferia rosas; à pátria.

O Bernardo Soares, empregado de escritório, que alguns amigos de Fernando tomaram por ser seu sósia, aparecia bem distinto do seu autor que sempre gostou de vestir bem e de parecer um gentleman. Este lisboeta das ruas da Baixa corporizou num Diário o aparente quotidiano onde os pensamentos mais transcendentes pareciam brotar dum pacato e anónimo cidadão. O seu “Livro do Desassossego”, best seller em vários países, não é só um desassossego em SSS, é um mastigar de sensações, desejos, incapacidades humanas onde o espírito adormece e resplandece.

Sobre arte dizia assim: TEXTO do “Livro do Desassossego”

Se Fernando se cansasse destes seus cabides pensantes podia lembrar-se das personagens antigas e divertir-se com as suas epidémicas aparições e desaparecimentos. Com as novas tecnologias, não seria possível ás inúmeras personagens morrer e renascer sem se explicarem, não podiam desdizer-se com tanto desplante. Não lhes era permitido desaparecer para parte incerta. Todo o “seu drama em gente” precisava obedecr a um esquema. Estariam na coluna dos Favoritos e de lá não fugiriam. Que paz para os investigadores!

Certamente Caeiro viria a construir uma casa em Tavira na Av. Jacques Pessoa, seu antepassado. Assim ficaria perto e podia visitar as suas tias do lado paterno – a Tia Lisbela e a Tia Maria da Cruz.

O Álvaro de Campos iria com facilidade a Inglaterra onde encontraria seus irmãos Luís e João. Até talvez se deixasse seduzir pela irmã de sua cunhada Eileen, a Madge. Aquela mulher enigmática que o atraíra nas vindas a Lisboa e que logo partia sem uma explicação plausível. Uma louca, achava a família!

Talvez o Álvaro deixasse de ser tão implicativo com Ofélia, porque no seu íntimo, sabia que Fernando ardia com desejos que o incomodavam. Desejos que, se concretizados, o tornariam um homem casável e tributável.

O neo-paganismo de Ricardo Reis talvez fosse atenuado porque até os deuses andavam a viver tempos difíceis. Darwin, Dawkins, Russel e outros desmancharam um certo crochet de religiões. Deus continuava Deus para muitos, mas assemelhava-se, por vezes, ao deus dos maçons: o arquitecto do mundo.

A vinda do mago Alister Crowelly a Lisboa, sem ter sido convidado por Pessoa, poderia ser apenas imaginada. Já não havia PIDE que o perseguisse e não seria necessária a encenação do seu suicídio na Boca do Inferno. Perdia-se uma história deliciosa! Enfim, as sujeições políticas podem gerar cenários cómicos e também inspirações de elevado valor artístico. Incongruências inexplicáveis!

O poema estático “O Marinheiro” não poderia ser tão estático porque as veladoras seriam substituídas por bailarinas, talvez discípulas de Eva Bauch que diriam suas falas monocórdicas arrastando-se pelo chão. Fernando Pessoa não ficaria de boca aberta porque nada o espantaria. O mundo de hoje nada tem de comparável com os alvores de 1900.

Nunca saberemos se essa disciplina informática e virtual lhe tolheria o génio que ás vezes se desenvolve na anarquia.

Interrogamo-nos se os seus estudiosos, depois da sua morte, sentiriam o mesmo fascínio por uma obra arrumada onde não houvesse constantes dúvidas, interpretações, armadilhas, registos dispersos.

Teria o autor o privilégio de ser apreciado em vida e compensado pela sua arte?

Hoje, a informação dos media é muitas vezes um começo de uma novela policial, onde há presumíveis arguidos, tráfico de influências, corrupção, etc. Só os repórteres de guerra continuam nos cenários onde a sua vida corre riscos. Os outros só correm o risco de desdizerem-se, o que não os incomoda. Este facto anda sempre colado à presunção humana e ao negócio.

Fernando Pessoa que não apreciava ditaduras devia se interrogar sobre a gripe das democracias. Esse facto talvez o faria eleger outro heterónimo, talvez um Viriato Portugal.

Assim, no mundo virtual da Second Life, apesar das intrusões dos malefícios da vida real, impossíveis de erradicar, consegue-se recriar uma pretensa vida que o utente organiza e goza. Ele foge ao mundo ao entardecer quando regressa a casa só. Ou onde não encontra os afectos ou interesses que fazem da casa um verdadeiro lar.

Há quem veja até à exaustão os repetidos noticiários onde fica presumido que o mundo é povoado de burlões, assassinos, corrompidos. Há quem conversa ao telefone horas perdidas para libertar seus diabinhos, quem tome soporíferos para no sono encontrar não só o descanso mas a fadiga de viver. A Second Life por alguma razão tem sucesso e seguidores. São residentes nos seus palácios de fantasia, recebidos em auditórios para os seus trabalhos silenciados no mundo real. É um mundo fictício que pode compensá-lo das injustiças, dos desamores. Pode comprar, vender, pode chegar a países onde nunca tem esperança de visitar.

Como todos os sonhos que o homem tenta erguer, pode também o levar a desilusões, frustrações, más operações financeiras.

É uma facção moderna das reencarnações que aliviam tenuemente a ideia da morte.

E, agora, meus caros estou à vossa disposição para responder às perguntas que desejarem fazer-me

Manuela Nogueira

Janeiro de 2009

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