Falar sobre… “Boa Noite, Sr. Soares”

26 Janeiro 2009 at 1:40 am (EVENT, Eventos) (, , , , , , , )

Vai ser amanhã pelas 22h, na Livraria City Lights em Portucalis. Falar do livro de Mário Cláudio “Boa Noite, Senhor Soares”

“«O meu semi-heterónimo Bernardo Soares aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as qualidades de raciocínio e de inibição; aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade.»

Venham conhecer o Sr. Soares e a surpresa que o Ibrahim Bates preparou, amanhã pelas 22 horas em portucalis.

— — — — — —- — —- — —- — —- — —- — —- — —- — —- — —- — —- — —- — —- — —- — —- — —- 

“Mário Cláudio escolheu para personagens alguns nomes que surgem no Livro do Desassossego, e passo a citar: «Se houvesse de inscrever […] a que influências literárias estava grata a formação do meu espírito, abriria o espaço ponteado com o nome de Cesário Verde, mas não o fecharia sem nele inscrever os nomes do patrão Vasques, do guarda-livros Moreira, do Vieira caixeiro de praça e do António moço do escritório.»

Para narrador da história Mário Cláudio escolheu o moço do escritório, António, talvez por ser o mais novo, o mais ingénuo e por isso mais capaz de ser tocado por aquele ser estranho com quem convive à distância no escritório do patrão Vasques.

Em Boa Noite, Senhor Soares recebe um nome completo — António da Silva Felício — e é um jovem acabado de chegar da província, mais precisamente de Escalos de Cima, concelho de Idanha a Nova, para se empregar como aprendiz de caixeiro no escritório de um armazém de venda a retalho da baixa lisboeta, na prosaica Rua dos Douradores, onde o senhor Soares é tradutor.

Com a simplicidade própria de quem nada conhece, António tudo e todos observa com atenção. E limita-se a descrever o que presencia, como se o fizesse quase apenas para si próprio, sem emitir juízos.

Desde o primeiro momento que o rapaz fica preso à figura do Senhor Soares que, segundo diziam os seus colegas, «embora não se distinga de qualquer outro sujeito, a verdade é que deu sempre mostras de ser um bocadinho esquisito»

No escritório todos sabem que escreve e que é poeta, e sem que António compreenda bem porquê, o certo é que goza de um estatuto especial. Incluindo para o patrão Vasques e para o guarda-livros, o senhor Moreira, que teoricamente ocupa o lugar de chefe do tradutor, mas aceita de bom grado a alcunha de Dom Barómetro que o senhor Soares lhe atribuiu devido à constante preocupação do guarda-livros com as condições atmosféricas.

Ao inserir-se no seu pequeno círculo de relações, António relata pormenores da vida de cada um, sobretudo aqueles que se vão tornando motivo de conversa dos outros. E desenrola perante o leitor um tecido urbano pardo, onde tudo remete para uma Lisboa murcha e tristonha, fechada sobre si mesma, onde nada acontece, nada é dramático, nem exaltante. Uma Lisboa onde o tempo não corre e, cito, «o dia seguinte seria de trabalho, igual aos da semana anterior, e da próxima» (p. 31), e em que uma mediocritas nada áurea todos invade. Todos não. Um ser escapa, um ser especial, que suscita a curiosidade do rapaz, por motivos que ele próprio não entende.

E à medida que avançamos na leitura, a fantástica mestria de Mário Cláudio vai-nos permitir (a nós, seus leitores) apreciar o modo como o rapaz se deixa tocar pela personalidade daquele enigmático senhor Soares. O leitor só tem acesso ao discurso interior do rapaz, que revela a sua total candura, a dificuldade em interpretar a sua própria experiência e os sonhos de viagens que não fará.

Gradualmente, a figura do Senhor Soares transforma-se no principal foco da atenção do jovem António e aquele adulto com quem nunca conversa, aquele senhor que só à saída dirige a palavra ao colectivo rapazes do escritório para lhes dar as boas noites, vai ser a figura de referência da sua juventude privada de projectos, de perspectivas e de formação.

(…)De repente, vira-se a página e passaram 52 anos. António recorda vagamente a cidade, o seu antigo local de trabalho, os sons que já não se ouvem… mas o que evoca com mais nitidez é o Senhor Soares, que tão mal conhecera e que afinal tanto o marcara. A sua vida é um arco entre a juventude e a velhice. Como na epígrafe de Shelley que abre o livro: «Youth will stand foremost ever» («A juventude permanecerá para sempre, acima de tudo»).

 

 

Emílio Rui Vilar, publicado em 9.9.2008 na secção Recensões Críticas

 

Mário Cláudio — Boa Noite, Senhor Soares. Lisboa: Dom Quixote, 2008”

(excerto retirado por Hopes)

Anúncios

Permalink Deixe um Comentário

“Ensaio sobre a cegueira” de José Saramago em análise

29 Dezembro 2008 at 10:06 pm (EVENT) (, , , , , )

É mais um dos encontros periódicos de leitura do grupo de leitura City Lights. Hoje (dia 29) pelas 22 horas, em Portucalis, venham falar não só do Ensaio sobre a Cegueira, mas também da condição humana…~

Um pequeno texto para lhes aguçar o apetite. 

“Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos,
penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem”

Ensaio sobre a cegueira

Ensaio sobre a cegueira

Permalink Deixe um Comentário

City Lights Clube de Leitura

24 Novembro 2008 at 2:23 pm (EVENT) (, , , )

Desde que o City Lights surgiu em Maio tem reunido mensalmente leitores e interessados em diferentes autores e livros… Este projecto, sobre a orientação de Fokas e Hopen’dreams tem sido apoiado pela CCV como o primeiro  (e único) grupo de leitura que desenvolve em ambientes virtuais.

Hoje pelas 22H, reune-se mais uma vez, desta vez na Livraria de Owls Bay. O autor hoje referido é Machado de Assis, e a discussão de  “D. Casmurro” assinala o ínicio das actividades do CCV no que diz respeito á comemoração do centenário da sua morte.

Por isso, quer tenham ou não lido o livro ou conheçam a história, estão convidados a conhecer o seu autor:

“Dear Friends,

É com muito prazer que a comunidade de leitura  “City Lights irá realizar a sua reunião mensal, por vosso amável convite, nas instalações da vossa Livraria em Owls Bay! Será mais uma ocasião para estar em vossa casa e para conhecer melhor as vossas actividades.  Dia 24, Segunda-feira pelas 22.00.
Sobre Machado de Assis, toda a gente sabe quem é. Sobre a Capitu e o Dom Casmurro ainda mais. Um tema pós moderno completamente actual nos dias de hoje.
“No romance machadiano, protagonizado pelo casal, o narrador constrói uma narrativa ambígua por natureza, fazendo com que o leitor ora duvide, ora acredite na inocência de Capitu, acusada de adultério pelo marido, ex-seminarista e advogado. O sacerdote e o jurisconsulto se unem para condenar a esposa, num tribunal de provas refutáveis e inconsistentes. O veredicto final fica por conta do leitor, mas é o próprio acusador que a absolve, na mesma medida que a condena: “Capitu era mais mulher do que eu homem”. De fato, a grandeza de Capitu nos seduz e se torna um exemplo de força, coragem, audácia em pleno século XIX.”. Da “Wikipédia”…mas é só ir ao “Youtube” e têm lá tudo o que devem saber sobre o Dom Casmurro e ainda eventulamente não sabem….
Claro que o prazer de ler o romance não substui a curiosidade…mas a reunião é já amanha hoje !
Fokas Greenwood, em Owls Bay Blog.

Permalink Deixe um Comentário